Freguesia de Alcains

História

POPULAÇÃO DO PAÍS: SÉC XX

Em Portugal, a nível da população deste período, primeira metade do Séc XX. Constata-se que, em 1906, havia 5 420 milhões de habitantes e, em 1950, 8 441.

Se atendermos que entre 1911 e 1920 a população portuguesa estagnou devido à primeira Guerra Mundial, às epidemias e à emigração, sobrou para os anos 30 a 50 o grande surto demográfico que levou a população a crescer, entre 1940 a 50, cerca de 700 mil habitantes. Esta reviravolta demográfica ficou a dever-se sobretudo à diminuição da mortalidade infantil. Os arredores de Lisboa e Porto cresceram desmesuradamente com a emigração do interior à procura de emprego. O início dos bairros da lata, à volta dos centros urbanos, vieram sobretudo destes tempos.

O distrito de Castelo Branco, nesta década, cresceu 200%.O surto de construção de escolas nesta década, hoje fechadas em muitas das nossa aldeias do interior, explica-se por este crescimento muito rápido da população.

A partir dos anos vinte, inicia-se a grande arrancada da população portuguesa.

Em 1920, o movimento da população de Alcains foi o seguinte: realizaram-se 33 casamento. Nasceram 61 meninos e 59 meninas. Óbitos: homens, 56, mulheres, 57. nados mortos: 2 m2ninos e 5 meninas. ( A Província, 3.7. 1921).

 

A PLANTA DE ALCAINS

SÉC. XVIII

A Primeira Planta de Alcains que conhecemos reporta-se a 1762, por altura da Guerra dos “Sete Anos” (1756/63). Tratou-se entre um conflito entre a França e a Inglaterra.

D. José I, Rei de Portugal, é convidado a tomar partido pelos Bourbons de França contra Inglaterra. Este pedido baseava-se na ligação que o nosso Rei tinha com a família do Rei de França, uma vez que estava casado com uma sua familiar.

Portugal recusa entrar nesta guerra ao lado da França, invocando a sua antiga aliança com a Inglaterra. Adoptava assim uma posição de neutralidade face ao conflito. Só que os portos de Portugal começam a abrir-se aos inimigos de França pelo que as tropas aliadas (franceses e espanhóis) começam a invadir Portugal.

Em Abril de 1762, as tropas invasoras começam a entrar por Trás-os-Montes.

Com o exército mal preparado para responder às invasões, recorre-se a um general alemão, Lippe, para organizar e comandar as nossas tropas.

Entretanto, novas invasões atingem outros pontos do país, nomeadamente a Beira Baixa, por Almeida. O castelo de Castelo Branco sofre drasticamente, na sua estrutura, com estas invasões. A finalidade destas seria atingir o Alentejo e caminhar depois sobre Lisboa. O conde de Lippe monta então uma estratégica para dominar o invasor formando cinco divisões. Uma delas, sobre o comando do conde Santiago, destinava-se a cobrir a Beira-Baixa e a Estremadura. A 17de Setembro do mesmo ano, as praças de Salvaterra e Segura, na fronteira, entregavam-se aos invasores. Estava aberto o caminho para marcharem para Castelo Branco e, depois, seguirem para Vila Velha, Nisa e atingirem a capital.

Sabendo disto, Lippe procura uma estratégia de defesa de Lisboa, começando por mandar tropas para Abrantes e para as montanhas de Vila Velha de Ródão, para impedir a passagem do Tejo. Foi nesta zona que tudo se resolveu a favor dos portugueses apoiados por tropas estrangeiras, ingleses, alemães e suíços. As tropas franco-espanholas foram vencidas e acabaram por se retirar para Sarzedas.

O inimigo começa, a partir daqui, a encontrar dificuldades no abastecimento de viveres, carros e homens, por ordem do conde Santiago, que proíbe qualquer entrega de alimentos às tropas invasoras. Estes ao recuarem, decidem fixar-se em Castelo Branco, junto à Sé de S. Miguel, na espera de melhores dias. As tropas portuguesas, comandadas por Lippe, não lhes dão descanso e acabam mesmo por se retirar para Espanha, pela ponte romana do séc. II. Em Alcântra. Descontentes, durante o seu regresso, ainda tiveram tempo de destruir as fortificações de Segura e de Salvaterra do Extremo. O Tratado assinado por ambas as partes, em França, Fontainebleau, colocou um ponto final nesta contenda, em 1. 12. 1762.

Fonte Romana

Fonte Romana

Durante a permanência das tropas nesta região, executaram-se alguns mapas de terrenos e povoações, pela mão de um espanhol, para fornecerem dados às tropas relativamente ao conhecimento da zona. Alcains aparece nestes mapas com o nome de “Alcain” . Graças a estas plantas, hoje podemos ter informações, preciosas sobre a estrutura urbana das aldeias desta região da beira Baixa, no séc. XVIII. Alcains também acabou por ser contemplada no conjunto das povoações desenhadas nestes mapas. Graças a eles, podemos hoje observar as ruas que então existiam nesta povoação.

Confrontada esta planta com a actual zona histórica, podemos ver claramente que Alcains se definia nesta altura pelas ruas onde ainda hoje passa a procissão. Estão assinalados dois pontos de referência importantes: a “Fonte Romana”, na margem esquerda da ribeira da Líria, e a igreja na margem direita.

Alc.XII-Capela

Capela Espirito Santo

A partir destes pontos distinguem-se as ruas do Espírito Santo e a rua das Fontainhas, com caminho a seguir para os caminho-de-ferro pela estrada velha, antiga rua do Torrejão, hoje Vicente Sanches. A partir da Igreja matriz, podemos observar três ruas: a estrada que vai para Escalos de Cima, a rua em direcção à antiga devesa de Santo António e a actual rua da Liberdade, antiga rua Longa, que partia da devesa de S. Sebastião, também designada por devesa do Beirão em registos do baptismo do séc. XIX, e que chegava até à actual rua Viscondessa de Oleiros. Estas eram as principais artérias de Alcains. Só falta a rua da Prata, pequena rua junto à Igreja, a rua da Gaia, e a da Amoreira. Estas encontram-se só tracejadas.

Segundo o registo de baptismos do séc. XVIII, Alcains tinha as seguintes devesas que eram

Igreja Matriz

Igreja Matriz

terras do povo: a do Beirão ou de S. Sebastião, com uma capela do mesmo nome, a de Santo António também como uma ermida, e a de Santa Apolónia que, na sessão de Câmara de castelo Branco, em 13 de Janeiro de 1912, aparece num deferimento de

Santa Apolónia

Santa Apolónia

um requerimento. Então “ José Simões, de Alcains, pedia a venda, em conformidade com as leis da desamortização, de um pedaço de terreno municipal, existente na Devesa de Santa

Apolónia, daquela freguesia”. Mas tal não lhe foi concedido. Caso contrário, hoje a ermida já não teria tanto espaço à sua volta.

Melhor sorte teve o bisavô materno de António Trigueiros de Aragão, empregado de Finanças, em Coimbra, que conseguiu comprar o recinto da capela de S. Sebastião no séc. XIX, na época do liberalismo, segundo a lei da desamortização.

 

Séc. XIX

Para o séc. XIX, a partir dos registos de baptismos da década de 1850/60 podemos ter uma ideia muito aproximada das ruas que formavam o tecido urbano de Alcains. Encontramos nos mesmos as ruas onde nasceram as crianças nestes anos: Ruas do Adro, Poço Novo, Amoreira, Fonte, Casas Novas, Gaia, Torrejão, Estreita, Ribeirinho, Longa, Quintal do Roxo, Saco, Laranjeiras, Prata, Espírito Santo, Padrão, Hospital, Ponte, Arrabalde.

 

Séc.XX

Em 1935, começa a fazer-se grande pressão para o inicio da cobertura da primeira parte de Líria, e, como a Praça se fazia junto da fachada sul da Igreja, rua do Adro e rua da República, hoje José Pereira Monteiro, começa-se a ventilar a hipótese desta se fazer noutro local. A este propósito, saiu esta notícia na imprensa regional: “Em todos os Domingos desta quadra do ano que atravessamos, esta localidade é abastecida de todos os géneros alimentícios e mormente de todas as frutas. A referida venda faz-se em local impróprio, apesar de existir um largo onde os vendedores e compradores estariam muito à vontade. Tudo se vende por preços muito elevados; e o consumidor, que tudo paga, não vê a origem deste mal. Resulta do preço excessivo da aplicação do imposto camarário pelos servidores da nossa Câmara, que, fugindo à tabela, aplicam as referidas taxas a seu belo prazer. A quem de direito pedimos as devidas providências “(A Era Nova, Agosto de 1935). Ficamos sem saber qual seria o largo proposto para o mercado, mas o que vigorava tornara-se incapaz de responder às exigências da comunidade.

Entretanto, as intervenções no caso histórico vão-se dando com o objectivo de modernizar Alcains, abrir ruas mais largas, aliás como era apanágio de alguns espíritos da época. Em Castelo Branco, também apareceram por esta altura ideias modernizadoras para” arejar a cidade”. Abrir ruas largas e arejadas era já a preocupação de alguns espíritos tidos como mais avançados.

Assim, em 19.09.1938, a rua do Espírito Santo, uma das ruas históricas principais é alargada, a partir da Fonte, com a construção de um novo edifício para a sede da Junta de Freguesia, sendo Regedor de Alcains José Lopes Castilho. Este edifício, muito pequeno, acabaria por ser também destruído, com o mesmo fim, já nos anos 70 do século passado, sendo presidente da Junta José

centro de saude

Centro de Saúde

dos Reis Dias. È então restaurado o actual edifício da Junta, no largo da Praça, em frente ao actual Centro de Saúde.

Neste mesmo ano, procede-se ao reboco das paredes do cemitério e à caiação das mesmas. Tinha sido construído em 1895, por ideia de José André Júnior, mas as verbas para o terminar não deveriam ter chegado.

Em 04.03.1939, a Junta deu inicio aos trabalhos da calçada das Rua das Pedras do Sal e seu alargamento, sendo, para tal, expropriadas algumas casas velhas. Este benefício permitiu fazer a ligação entre o Outeiro e a Rua das Escolas que estavam a ser construídas (Beira Baixa, 04. 03.1939).

Foi ainda nos anos 30, que a rua de Santo António, com o ribeiro de João Serrão ao lado, ainda destapado, começou a ser uma opção para construção. O mestre carpinteiro, José Rafael, construiu então uma casa, 1930, que acabou por vender ao senhor Soares da farmácia. Este acabaria por construir depois uma ao lado com um portão de ferro para adega. Vendida esta primeira casa. José Rafael compra então mais um terreno na mesma rua e faz a sua casa para aí residir, com oficina por baixo. Se bem repararmos, as cantarias das portas, e janelas destas casas são ainda todas iguais.

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Largo de Santo António

Mais tarde, José Amaro Lopes, marido da grande comerciante, senhora Brandoa, fez a casa que faz quina com o Largo de santo António, com comércio no rés do chão, já em 1955.Esta grande quinta no meio de Alcains pertencia à mãe de Ti Laurindo.

Quanto ao largo da antiga devesa de Santo António, era sobretudo um lugar com arte sacra. A capela de santo António, abandonada aos ciganos, depois de servir de escola, nos anos 30, é destruída nesta década. O grande Calvário, com três majestosas cruzes, levou o mesmo caminho. Por detrás do Calvário, a norte, havia nesta altura o talho municipal onde se vendia as carnes frescas. Neste local, foi construído o palacete do empreiteiro José dos reis, dando este, em troca, 1936, um terreno na actual rua João de Deus, onde hoje se situa a sede do CDA, em frente às Alminhas, para se construir um novo matadouro com melhores condições higiénicas. Este matadouro acabaria por ser também destruído, nos anos 80, uma vez que já havia a Consal.

Relativamente ao aspecto exterior das casas de Alcains, uma grande parte, até aos anos 40, não eram rebocadas. Mantinham o granito nas fachadas das habitações, como ainda em muitas pequenas aldeias da Beira. Só a partir dos anos 40 do passado século, o Governo Salazar deu instruções às Câmaras para que pressionassem as pessoas para rebocarem e caiarem as suas casas, sob pena de multa. Algumas Câmaras levaram esta recomendação mais a sério, como a de Castelo Branco, pelo que Alcains viu, nesta década, muitas casas a serem arranjadas exteriormente como mandava o Governo da Nação (Beira Baixa, 06.04.48). Outras Câmaras fizeram orelhas moucas a esta ordem, alegando falta de meios. Alguém perguntava então, neste jornal que vimos seguindo, porque não se caiam as casas, só por dentro, deixando o exterior como estava? Esta interrogação tinha ver já com a preocupação de alguns preservarem a identidade das suas aldeias. Perguntava-se: “ mas caiar as casas todas, acabar com a típica meticidade destas vivendas pobres de pedra negra à vista, vestir de chitas coloridas da cidade o corpo das nossas aldeias beirôas?”

Para pressionar a concretização desta mediada, não eram emitidas licença pela Câmara de castelo Branco sem a “obrigação das casas ficarem rebocadas e caiadas”. A razão oficial desta medida era promover a higiene das aldeias de Portugal. “ Uma casa caiada com cheirinho a alecrim, era uma casa portuguesa com certeza”. Como dizia uma canção que fez moda.

Dentro desta perspectiva higiénica, nesta altura, 1948, a Junta, Casa do Povo, Regedor e União nacional, pediram ao Governador Civil a cobertura do Ribeiro da Líria, como uma grande necessidade para o melhoramento do ambiente da povoação uma vez que as pessoas faziam para lá todo o género de despejos fecais e domésticos. Pediam-se ainda para Alcains, o telefone, a água e a luz eléctrica. Já havia Telégrafo-postal o qual passa neste ano na rua do Adro da Igreja para a Rua do Poço Novo, casa de Benedito beirão, comerciante.

Começa-se a construir a cabine eléctrica (HEAA) junto ao cemitério, mas lamenta-se que tenha ficado tão longe da povoação, pelo que estava a ser difícil levar os fios para abastecer de luz a freguesia. O primeiro responsável pela electricidade de Alcains/ acender e apagar as luzes e outros serviços), foi o electricista José Preto. Seguiu-se o sr. Baptista, de Idanha- a- Nova.

Há ainda queixas do “ péssimo estado” em que se encontra a calçada da Rua Longa (Liberdade) uma das principais artérias de Alcains, (Beira Baixa, 27.07.40). No mesmo ano, é arranjado o caminho velho para a estação da CP, por 41 contos.

Museu do Canteiro

Museu do Canteiro

Em 17 de Agosto de 1940, deu-se, finalmente, inicio à cobertura da Líria, só desde o solar dos Goulões, até à rua da Prata. Em 4 de Janeiro de 1941, esta obra encontrava-se quase concluída, o que permitiu fazer-se aqui “ uma boa Praça” (Beira Baixa, 04.01!941).Este novo espaço torna-se então um centro cívico e comercial de Alcains, até aos anos 70, altura em que se vai mudando para o largo de Santo António com as sucessivas coberturas da Líria, a jusante, e a consequente urbanização desta zona de antigas hortas muito férteis.

A Líria era atravessada no centro da povoação, antes da sua cobertura, pelas seguintes pontes: uma ao fundo do solar dos Goulões, com passagem para a rua da dita “Fonte Romana”, que dava acesso à rua do Espírito Santo. Uns metros mais abaixam, uma ponte mais estreita, só para peões, em frente ao actual mercado coberto. Por fim, outra do mesmo tamanho, que dava acesso à rua da Prata.Com a cobertura do ribeiro, nos anos 40, todas elas desapareceram.

Entretanto decorria também, nesta altura, os trabalhos de electrificação de Alcains, Em 15 de Setembro de 1940, dá-se conta na imprensa da inauguração dos serviços de telefones da Escola Primária da Pedreira, masculina, tendo-se rasgado para lá uma avenida nova e ainda a luz eléctrica. Contudo, esta escola ficou sem casas de banho para os alunos, o que foi muito criticado na altura, bem como ainda a falta de água, o que levava os alunos a pedirem-na aos vizinhos desta escola. As necessidades fisiológicas eram feitas junto do recreio, na parte de fora, muito perto, em frente ao portão / beira Baixa, 15. 09.1940).

Coma a cobertura desta avenida desta escola, Alcains começa a estender-se para este lado, com a construção das primeiras casas da pedreira junto à escola primária masculina e, ao longo da avenida, então chamada das escolas novas. Novas moradias vão nascendo em terrenos de antigas hortas.

Os filhos do lavrador Luís Amaro Lopes, que comprou uns terrenos a seguir às pedras do sal, do lado esquerdo, vão construídos, a partir de agora, as suas habitações. Foi este lavrador que fez a casa contígua ao Rossio onde antes havia uma grande horta, a rodear a capela do Espírito Santo, 1922. Com a construção da casa do lado esquerdo da capela, nos anos 20/30, do passado século, pelo africanista José Bravo, a capela acabaria por ficar sem qualquer espaço em volta. Só restou o largo do Rossio.

A avenida das escolas, na parte de cima, junto ao edifício escolar, a partir dos anos 40, começa a ser ladeada de casas novas graças ao dinheiro da exploração do minério durante a guerra. O estranho, que então se explorava junto ao cabeço da Pelada, e nas hortas, em volta de Alcains, nomeadamente na Retorta, junto à Líria, por muitos alcainenses, acabou por ser investidos em terrenos para habitação ou compra de pequenas hortas. Como não havia urbanizações nos anos 40, a construção fazia-se junto às ruas já existentes, normalmente casas de ré do chão. Esta época acabou por ser um período de vários melhoramentos em Alcains.

Padrão Elevação a Vila

Padrão Elevação a Vila

Em 1944, segundo o mesmo jornal, a rua Longa, hoje da Liberdade, é coberta por uma nova calçada mais moderna, de paralelepípedos, sendo a despesa paga por António Trigueiros de Aragão, em frente ao seu solar. A restante foi custeada pela JAE (Junta Autónoma das Estradas).

Em 1971, Alcains é elevada a vila.

 

 

BEIRÃO, Florentino Vicente, História de Alcains II. Ed. Câmara Castelo Branco, Coimbra , 2004, pág. (32-33) (131-138).